Mostrando postagens com marcador Meditações. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Meditações. Mostrar todas as postagens

sábado, 27 de outubro de 2007

Concerto Confissões ou Meditação Para o Fim de Semana

Depois do post anterior, Strella do Dia, segue mais um vídeo do Concerto Confissões, proposto por Mim, Petrônio Joabe e Lana Sheila. O Concerto reúne excertos do livro Confissões de Agostinho. Neste vídeo, é possível ouvir um excerto do livro mais um belíssimo prelúdio de Bach executado a dois violões.
Oxalá, seja um belo "prelúdio", mesmo, para o fim de semana para todos. Boa audição.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

“Filósofo é tudo doido!”


Não tenho dado um bom testemunho por onde tenho andado. Prova disso é esta frase que ouvi no último sábado. Muito frequentemente, vou ao Sebo o Livreiro, do amigo Rai, ali no Beco. Com o tempo, acabei por fazer amizade com algumas garotas (Lilian e Wanna). E, nessa de ficar vasculhando, também falo, claro. E como não tenho nenhum compromisso com a coerência – e também pra descontrair o ambiente – acabo falando uma série de coisas destituídas de qualquer nexo. Uma blasfêmia aqui, uma heresia mais adiante, uma infâmia acolá. As meninas vão ouvindo. Volta e meia, perguntando: “Como é, Pai?”. Fustigado, me empolgo e ai é que eu começo a falar com muito maior eloqüência. Cito pensamentos profundos que ninguém nesse mundo leu em outra parte, faço suposições sobre a existência, teatralizo o armagedon. Pois bem. Numa dessas manhãs em que prefiro silenciar e tão somente folhear um ou outro livro (sim, muito ácaro), eis que ouço de Wanna – que não se dirigia a ninguém, apenas pensava em voz alta –: “Rapaz, filósofo é tudo doido!”. Virei-me para atentar para ela – já que, a rigor, era por minha causa que a frase fora proferida. Ao que ela disse: “É isso mesmo, Sena. Eu tava pensando naquele papo seu sobre esse tal de Dionísio. Sei não, viu?!.” Não sei exatamente o que foi que disso sobre Dionísio mas, pelo fruto, se deduz a árvore. Preferi não retrucar a Wanna. Tudo que eu dissesse seria usado contra mim. Calei e voltei aos ácaros. E comecei a dizer para mim mesmo que a humanidade é que era louca e que eu é que estava certo. Comecei a pensar sobre todos os grandes nomes que eram tidos como loucos e, no fundo, eram gênios. Comecei a pensar que, no fundo, onde ela via loucura, era lirismo; onde ela via loucura, era poesia; onde ela via loucura, eram malabarismos mentais de um pretenso halterofilista cerebral; onde ela via loucura, era uma nova proposta existencial; onde ela via loucura, era alguém que não queria ter “aquela velha opinião formada sobre tudo”. Depois parei de pensar e levantei-me do banquinho que me fora oferecido. Eu estava babando. Fiquei circulando por ali, gesticulando e falando, falando baixinho e olhando para o chão. Bati um livro de História Geral na cabeça, levemente. Babei mais um tanto. Saí porta afora, deixando um quê de perplexidade no semblante das meninas. Depois, ao invés de pegar o carro, saí voando até minha casa. Depois, teletransportei-me até a casa de meu amigo Dernival, no Vila América. Almocei. Voltei. Peguei o carro. Sintonizei numa rádio qualquer. Voltei no tempo. Escondido, fiquei ouvindo Elton Quadros. Ofereci-lhe um prestobarba. Ele me chamou de surfista prateado, eu o chamei de sofista. Ele ficou muito zangado.

Fábio Sena

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

SEM NADA PARA DIZER - THOMAS MERTON

“ Na sociedade tecnológica, na qual os meios de comunicação e significação tornaram-se fabulosamente versáteis e estão à beira de um desenvolvimento ainda mais prolífico - graças ao computador com sua memória inesgotável e sua capacidade de absorção imediata e organização dos fatos -, a natureza mesma e o uso da própria comunicação tornam-se inconscientemente simbólicos. Embora agora tenha a capacidade de comunicar instantaneamente qualquer coisa em qualquer lugar, o homem se descobre sem nada para dizer. Não é que não haja muitas coisas que poderia comunicar, ou deveria tentar comunicar. Ele deveria, por exemplo, ser capaz de encontrar-se com o seu semelhante e debater os meios de construir um mundo pacífico. É incapaz desse tipo de confronto. Em vez disso, dispõe de mísseis balísticos intercontinentais que podem levar a morte nuclear a dezenas de milhões de pessoas em poucos instantes. Esta é a mensagem mais sofisticada que o homem moderno parece ter para transmitir ao seu semelhante. Ela é, claro, uma mensagem sobre ele mesmo, sua alienação de si e sua incapacidade de entrar em acordo com a vida.”

Escrito em 1985 e publicado no Brasil em Amor e Vida, (Martins Fontes Editora, São Paulo), 2004. p. 69

Retirado do site:http://reflexoes-merton.blogspot.com

domingo, 29 de julho de 2007

Filosofia e realismo




(A Nau dos Insensatos - Hieronymus Bosch)



Tive, nos últimos dias, alguns problemas "computadorísticos"! Mas, acredito que agora tudo estará mais calmo.


Hoje, por falta de concentração, deixo aqui uma longa citação do livro: Padre Penido - vida e obra de D. Odilão Moura (Editora Vozes, 1995).Este trecho, trata do realismo em filosofia que, atualmente, tem ocupado a minha "meditação filosófica". Além de tratar da relação da filosofia com as ciências.


O texto trata, não de um realismo materialista ou pessimista, mas, de um realismo que significa buscar a compreensão do mundo em toda a sua dimensão (boa leitura e em breve voltarei com um texto sobre o assunto):


"Em nossos tempos, quando o homem está submergido nos interesses cotidianos, totalmente abafado pelas atividades econômicas, sociais, dificilmente encontrará o lazer indispensável para dedicar-se às coisas do pensamento puro. Perdemos grandiosas perspectivas da transcendência do saber filosófico. Conseqüentemente surgem os desentendimentos na vida social e o desgoverno da vida pessoal. Pensar bem, com idéias certas e orientadoras é o primeiro efeito do saber filosófico. Por isso, Pascal aconselha: 'Travaillons don a bien penser: voila le principe de la morale'.


Pensar bem, serena e coerentemente, não só é resultante de uma autêntica filosofia, como também, para aqueles que ainda não se afundaram na rotina diária, predisposição para penetrar o mundo das idéias transcendentes.Entrar no mundo encantador dessas idéias; eis o primeiro ofício do filósofo. Visa o filósofo a contemplação da verdade. Ele não a cria: descobre-a. Um dos mais graves erros de quem se aventura aos transcendentes vôos do pensamento está em tentar criar a verdade. A grande tentação de tantos pseudopensadores consiste em procurar estabelecer novos sistemas filosóficos. Se tantas inteligências geniais fracassaram neste intento - um Descartes, um Leibnitz, um Bergson, e muitos outros - não serão os diletantes em filosofia que revolucionarão, com suas elocubrações imaginativas, em geral repassadas de vaidade e presunção, o mundo do saber transcendente. O desejo de ser original destrói inicialmente o trabalho filosófico.


Qual o propósito do verdadeiro filósofo? Descobrir a verdade, esteja ela onde estiver, e contemplá-la. Contemplá-la não nos panoramas de uma imaginação criadora (Bergson nos mostra a 'função fabuladora' dos povos da sociedade estática), nem nos altiplanos da própria inteligência desligada do real, mas nas coisas tais como são. Docilidade ao real, ter os pés na terra, elevar-se acima do saber científico para mais bem coordená-lo, explicar a linguagem acessível o mistério do universo, tal é a tarefa do filósofo. S. Tomás, mestre do realismo, ensina-nos: 'O estudo da filosofia não visa saber o que os homens pensam, mas qual seja a verdade das coisas'(...).


O filósofo é o profissional da verdade. O filósofo Bergson é coerente quando afirma: 'Para mim uma só coisa conta, uma só me atrai: a verdade. Nada mais desejo conhecer, senão a verdade'.Há sistemas filosóficos alheios ao real. Na história da filosofia surgem amiúde. Contudo, não devem ser simplesmente abominados tais sistemas, pois além de manifestarem um sincero esforço de seus formuladores para a procura da verdade, não raro elementos de verdade encontram-se perdidos nos seus conteúdos. Estas palavras de S. Tomás ilustram essa afirmação: 'É justo sermos gratos para os que nos auxiliaram na aquisição da verdade. E isto é verdade, não somente em relação aos que menos estimamos terem encontrado a verdade e cuja opinião seguimos, mas também para aqueles que a procuraram superficialmente e dos quais nos afastamos. A eles também somos devedores: propiciaram-nos ocasião de nos exercermos na procura da verdade'(...).


A filosofia é o mais elevado conhecimento humano. Transcende, como vimos, ao saber das ciências. Embora delas use para desenvolver o seu exercício, a filosofia as domina do alto, define para cada uma o seu objeto, impede que uma ultrapasse os próprio limites, coordena-as, especifica-lhes os princípios. Muito Elucidativo é este texto de Boschenski, no qual bem se configura a natureza do saber filosófico: 'A filosofia é a ciência dos fundamentos da realidade. Lá onde as outras ciências param, onde sem mais indagar aceitam os pressupostos, entra o filósofo e começa investigar. As ciências conhecem, mas o filósofo pergunta o que é o conhecimento; as outras ciências estabelecem leis - ele põe a questão do que seja uma lei; o homem comum e o político falam de fins e utilidade - o filósofo pergunta o que se deve entender por fim e por utilidade'".